A FAMÍLIA E OS TRIBUNAIS · N.º 1 · 2 DE NOVEMBRO DE 2026
Onde está o apoio?
O que os tribunais de família contam sobre as nossas crianças, em Portugal e na Europa
Gaspar do Amaral · · com recurso a IA

São onze da noite. A cozinha já está arrumada, as crianças já dormem, e há uma mãe sentada à mesa com o telemóvel na mão. O pai dos filhos não paga a pensão há três meses. Ela não sabe se deve ir à polícia, ao tribunal, à Segurança Social ou a um advogado que não pode pagar. Escreve no motor de pesquisa: «pensão de alimentos não paga o que fazer». Aparecem duzentos resultados. Nenhum lhe diz por onde começar.
A esta mulher vou chamar Marta. Não existe com este nome, mas existe em milhares de casas. E a pergunta que ela faz às onze da noite é a mesma que faz um avô preocupado com o neto, uma professora que viu uma nódoa negra no braço de um aluno, um pai que quer ver os filhos ao fim de semana e não consegue: onde está o apoio?
Este artigo responde a essa pergunta com números. Não com opiniões: com os números que os próprios tribunais, as comissões de proteção e a Europa publicam, e que estão reunidos, desde esta semana, num só lugar, o Painel da Família e Menores.
O apoio existe. O problema é que está espalhado por sete portas, e ninguém nos dá o mapa.
1. Um painel com dez perguntas
O Painel da Família e Menores (familia.aprecisa343.com) faz dez perguntas simples e responde a cada uma com dados públicos e oficiais:
- Quanto tempo demora um processo de responsabilidades parentais?
- Quantos processos entram, terminam e ficam à espera?
- Quantos são de incumprimento, e o que fazer quando a pensão não é paga?
- Quantas crianças estão em perigo, e porquê?
- Quantas crianças estão acolhidas, e por quanto tempo?
- Como mudaram as famílias?
- O que decidem os tribunais superiores em casos parecidos?
- Onde fica o meu tribunal de família, e há mediação familiar?
- Que ligação há entre a violência doméstica e os processos de família?
- Portugal está melhor ou pior do que a Europa?
Os dados vêm da Direção-Geral da Política de Justiça (as Estatísticas da Justiça), das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens, da Segurança Social, do Relatório Anual de Segurança Interna, da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, do Eurostat e da Comissão Europeia. Cada número diz de onde vem e como foi calculado.
E há uma regra que nunca se quebra: o painel não mostra casos. Os processos de família e menores são reservados por lei (Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo, artigos 88.º a 90.º, aplicáveis aos processos tutelares cíveis pelo artigo 33.º, n.º 2, do Regime Geral do Processo Tutelar Cível). O painel só mostra números agregados, os mesmos que o Estado já publica, nunca uma criança, uma família ou um processo concreto.
2. O mapa que a Marta não tinha
Antes dos números, o mapa. A Tabela 1 junta, numa página, as sete portas do apoio à criança e à família em Portugal: para cada situação, a quem se recorre, quanto custa e o que os dados dizem sobre essa porta.

Leia a tabela pela linha que lhe diz respeito. Repare numa coisa: em cinco das sete portas, o apoio não custa nada. E na sexta, a do tribunal, há apoio judiciário para quem não pode pagar. O que falta raramente é o apoio. O que falta é saber que porta abrir primeiro.
A Marta, por exemplo, devia abrir a quinta porta: voltar ao tribunal que fixou a pensão e pedir o incidente de incumprimento. Não precisa de esperar mais meses de dívida. Mais à frente veremos o que acontece a seguir.
3. Quanto tempo demora a justiça das famílias?
Quando um casal se separa e não chega a acordo sobre os filhos, alguém tem de decidir com quem vivem, quando veem o outro progenitor e quanto se paga de pensão. Esse processo chama-se regulação das responsabilidades parentais e faz parte de uma família maior: os processos tutelares cíveis.
Em 2007, um processo destes levava 11 meses. Em 2010 chegou aos 14 meses. Hoje leva 7 meses.

O que a figura quer mostrar: cada ponto é o tempo médio, contado do dia em que o processo entrou ao dia em que terminou, dos processos que terminaram nesse trimestre. A linha escura (tutelares cíveis) desce de 9 a 14 meses, entre 2007 e 2014, para 6 a 8 meses desde 2018. A linha azul (divórcios e separações) fez o mesmo caminho: de 11 meses para 5. A subida de 2014 coincide com o novo mapa judiciário, em vigor desde 1 de setembro desse ano, quando muitos processos mudaram de tribunal. O significado é simples: a justiça das famílias está hoje claramente mais rápida do que há quinze anos.
Mas uma média é como a temperatura média de um hospital: diz pouco sobre o doente que está com febre. Em 2025, 44,8 % dos processos tutelares cíveis terminaram em menos de 3 meses. Mas 1 715 demoraram mais de 2 anos, e 193 mais de 5 anos.
Façamos a conta, como se fosse à mão:
- processos terminados em 2025: 15 248 + 7 581 + 5 815 + 3 655 + 1 522 + 124 + 69 = 34 014;
- os que demoraram mais de 2 anos: 1 522 + 124 + 69 = 1 715;
- em percentagem: 1 715 ÷ 34 014 × 100 = 5,0 %.
Cinco em cada cem. Parece pouco, até se perceber que, para uma criança de 6 anos, dois anos são um terço da vida.
4. A fila de espera encolheu para metade
Imagine a fila de um posto dos correios. O que interessa não é só quantas pessoas entram; é se o funcionário atende mais depressa do que as pessoas chegam. Se atende, a fila encolhe. Se não, a fila cresce, mesmo que ele trabalhe muito.
Nos tribunais de família passa-se o mesmo. No fim do 2.º trimestre de 2026 estavam à espera de decisão 25 133 processos tutelares (cíveis, de promoção e proteção e tutelares educativos). Em 2007 eram 48 546.
A conta: (48 546 − 25 133) ÷ 48 546 × 100 = 48,2 %. A fila encolheu para pouco mais de metade.

O que a figura quer mostrar: a altura de cada linha é o número de processos que ficou por decidir no último dia de cada trimestre, ou seja, o comprimento da fila. A linha escura, dos processos tutelares cíveis, começa em 38 561 em 2007, sobe ao máximo de 51 125 no fim de 2014, com a mudança do mapa judiciário, e desce até 21 990 no 2.º trimestre de 2026. A linha verde, dos processos de promoção e proteção das crianças em perigo, desce de 8 696 para 2 870. Os pequenos dentes que aparecem todos os anos são o verão: com as férias judiciais (16 de julho a 31 de agosto) só correm os urgentes, terminam menos processos e a fila sobe um pouco. O significado: a fila desceu de forma sustentada e, no último trimestre, por cada 100 processos tutelares cíveis que entraram, terminaram 104 (10 760 ÷ 10 338 × 100). Quando este número está acima de 100, a fila encurta.
5. Quando a decisão do tribunal não se cumpre
Voltemos à Marta. O tribunal decidiu a pensão há dois anos. O pai pagou um ano e parou. A Marta não está sozinha: em 2025 terminaram nos tribunais 10 373 incidentes de incumprimento das responsabilidades parentais.
Ponha este número ao lado das regulações (as decisões de origem): 11 784 em 2025. A conta: 10 373 ÷ 11 784 × 100 = 88. Por cada 100 regulações que terminam, terminam 88 incumprimentos. Não quer dizer que 88 % das decisões falhem (a DGPJ não segue cada processo), mas diz uma coisa clara: decidir não chega; uma grande parte das decisões volta ao tribunal para ser cumprida.
O caminho da Marta, passo a passo, é este:
- Pede ao tribunal que fixou a pensão o incidente de incumprimento (artigo 41.º do Regime Geral do Processo Tutelar Cível).
- O tribunal pode mandar descontar a pensão diretamente no vencimento, na pensão ou noutros rendimentos de quem deve (artigo 48.º do mesmo regime).
- Se mesmo assim não houver pagamento, o Fundo de Garantia de Alimentos Devidos a Menores (Lei n.º 75/98) pode pagar no lugar de quem deve; depois, o Estado cobra-lhe a dívida.
- Deixar de pagar a pensão pode ser crime de violação da obrigação de alimentos (artigo 250.º do Código Penal).
- Se não tiver dinheiro para advogado nem custas, pede apoio judiciário na Segurança Social.
Cinco passos, todos públicos, todos gratuitos ou com apoio. A Marta não precisava de duzentos resultados de pesquisa. Precisava desta lista.
6. As crianças em perigo: a escada da proteção
Em 2025 chegaram às 313 Comissões de Proteção de Crianças e Jovens 62 204 comunicações de perigo. A primeira causa é a negligência; a segunda, a violência doméstica, com 17 450 sinalizações.
Muita gente imagina que, quando uma comissão intervém, a criança é retirada à família. Os números dizem o contrário: das 32 915 medidas aplicadas pelas comissões em 2025, 85,3 % foram de apoio junto dos próprios pais. A primeira decisão chegou, em média, em 18 dias.

O que a figura quer mostrar: a proteção de uma criança sobe uma escada de três degraus. No primeiro, qualquer pessoa comunica o perigo (62 204 comunicações). No segundo, a comissão de proteção decide com a família, mas só pode agir com o consentimento dos pais (32 915 medidas, quase todas de apoio em casa). No terceiro, quando falta o consentimento, quando o acordo não é cumprido ou quando o perigo é grave, o Ministério Público leva o caso ao tribunal de família e menores (5 038 processos de promoção e proteção terminados em 2025). O significado está no último degrau: em 2008 eram 1 481; em 2025, 5 038. A conta: (5 038 − 1 481) ÷ 1 481 × 100 = 240 %. São cada vez mais as crianças cuja proteção tem de ser decidida por um juiz.
E quando a criança não pode ficar em casa? Em 2024 viviam em acolhimento 6 349 crianças e jovens. No último ano com o pormenor publicado, 2023, só 11 % estavam numa família de acolhimento; quase nove em cada dez viviam em casas de acolhimento. As orientações das Nações Unidas pedem o contrário para as crianças pequenas: que vivam em família. Por isso a Tabela 1 tem uma porta que quase ninguém conhece: qualquer família pode candidatar-se a família de acolhimento, na Segurança Social ou nas instituições de enquadramento.
7. A violência que entra pela porta da cozinha
Em 2025 houve 29 644 participações de violência doméstica às polícias. Quase uma em cada cinco vítimas (18,8 %) tinha menos de 16 anos. As participações por violência contra menores subiram 8,6 %.
Um número diz mais do que todos os outros. No 2.º trimestre de 2026, entre abril e junho, estavam acolhidas na Rede Nacional de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica 1 390 pessoas. 688 eram crianças: 688 ÷ 1 390 × 100 = 49,5 %. Mais crianças do que mulheres (681). Quando alguém foge de casa para se proteger, as crianças vão também.
É por isso que a lei liga as duas coisas: quando há violência doméstica, o Ministério Público comunica ao tribunal de família, e a regulação das responsabilidades parentais passa a ser urgente. E a criança que assiste à violência é, também ela, vítima.
A linha 800 202 148 é gratuita e funciona 24 horas por dia. Em perigo imediato, 112.
8. Portugal e os 27: estamos melhor ou pior?
Comparar países é como comparar notas de escolas diferentes: só vale se o teste for o mesmo. Por isso, o painel só compara Portugal com os outros 26 países da União Europeia quando os dados são medidos da mesma maneira, no mesmo ano, e quando pelo menos 20 dos 27 países os publicaram.

Leia a tabela como um boletim com seis disciplinas. Na rapidez dos tribunais, Portugal está a meio da turma: 263 dias, perto da mediana europeia de 248. Nos recursos, é dos mais rápidos: 94 dias na Relação e 71 no Supremo, contra medianas europeias de 207 e 205. Na forma das famílias, Portugal é diferente: é o 3.º país onde mais bebés nascem de pais não casados. Isto conta para os tribunais: quando estes pais se separam, não há divórcio; há diretamente um processo de regulação das responsabilidades parentais.

O que a figura quer mostrar: cada barra é um país; quanto mais curta, mais rápida é a justiça cível de primeira instância (onde estão incluídos os processos de família). Portugal está destacado e a mediana europeia marcada. O significado: Portugal não está entre os lentos (Grécia, Chipre e Itália ultrapassam os 580 dias) nem entre os mais rápidos (Países Baixos, Chéquia e Lituânia ficam abaixo dos 130). Está no grupo do meio, e a tendência nacional, como vimos nas Figuras 1 e 2, é boa.
Uma nota de honestidade sobre a última linha da tabela. Portugal aparece em 26.º lugar em 27 na violência do parceiro: só a Bulgária tem valor mais baixo. Mas este número vem de um inquérito, e num inquérito a resposta depende também de as pessoas se sentirem à vontade para falar. A posição de Portugal mede o que foi contado ao entrevistador, não toda a violência que existe. Os 29 644 casos participados à polícia num só ano lembram que não há motivo para descanso.
9. O que isto muda na sua vida
Se tiver de guardar só cinco coisas deste artigo, guarde estas:
- Se uma criança corre perigo, comunique. À CPCJ do concelho, à polícia ou ao Ministério Público. Não precisa de provas nem de advogado. Na maioria dos casos, a resposta é apoiar a família, não retirar a criança.
- Se se separa, tente primeiro o acordo. A mediação familiar pública custa 50 € por pessoa e dura cerca de 3 meses. Sem acordo, o tribunal leva cerca de 7.
- Se a pensão não é paga, volte ao tribunal logo. O incidente de incumprimento pode ser pedido assim que a pensão falha, e o tribunal pode mandar descontar no ordenado.
- Se não tem dinheiro, peça apoio judiciário na Segurança Social antes de desistir.
- Se há violência em casa, ligue 800 202 148, a qualquer hora. Em perigo imediato, 112.
E se quiser saber qual é o tribunal de família do seu município, o painel tem a lista dos 308 municípios: 202 têm um juízo de família e menores; nos outros 106, os processos correm no juízo local que serve o município.
10. A Marta, outra vez
São onze da noite, outra vez. A Marta está à mesma mesa, com o mesmo telemóvel. Mas desta vez não escreve no motor de pesquisa. Abre o painel, vai à pergunta 3 e lê cinco passos. Amanhã de manhã telefona para o tribunal.
O Estado não lhe deu mais dinheiro, nem mais juízes, nem uma lei nova. Deu-lhe uma coisa mais simples e mais rara: um mapa. O apoio existe. Agora está à vista.
Cordialmente, Gaspar do Amaral
Nota metodológica
- Fontes. Estatísticas da Justiça (DGPJ), ficheiros de dados abertos de cada quadro, recolhidos a 2 de novembro de 2026: movimento de processos, duração média, escalões de duração, processos tutelares cíveis e de promoção e proteção terminados nos tribunais judiciais de 1.ª instância. CNPDPCJ, Relatório Anual de Avaliação da Atividade das CPCJ 2025 (p. 8, 9 e 68–69). Instituto da Segurança Social, Relatório CASA 2023 e Relatório CASA 2024 (este citado pela Renascença, 11/09/2025). Relatório Anual de Segurança Interna 2025 (p. 44, 57 e 58). CIG, dados do 2.º trimestre de 2026 (4 de agosto de 2026). Eurostat (demo_ndivind, demo_find, gbv_ipv_type). Comissão Europeia, Painel de Avaliação da Justiça da UE 2026, dados quantitativos (estudo da CEPEJ, figuras 6, 10 e 13). Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo, Regime Geral do Processo Tutelar Cível, Lei n.º 75/98, Código Penal e gov.pt (mediação familiar).
- Contas feitas pelo autor. Somas dos quatro trimestres para obter um ano; percentagens (parte ÷ todo × 100); variações ((depois − antes) ÷ antes × 100); «terminados por cada 100 entrados» (terminados ÷ entrados × 100); a mediana da União Europeia (o valor do meio dos países com dados, ordenados); a posição de Portugal (número de países com valor maior do que o de Portugal, mais 1, contando só os países com dados do mesmo ano e só quando são pelo menos 20). Todas as contas estão escritas no texto ou no painel, para poderem ser refeitas à mão.
- Limites. A DGPJ publica a duração em meses inteiros e para todo o país, não por comarca. Os incumprimentos e as regulações comparam-se no mesmo ano; não são o seguimento de cada processo. Os números do crime (RASI, CIG) e os da proteção (CPCJ) contam coisas diferentes e não se somam. O inquérito europeu sobre violência de género foi feito entre 2020 e 2024, conforme o país (em Portugal, de julho a setembro de 2022).
- A Marta é uma personagem imaginada para dar rosto aos números; não corresponde a nenhum caso real.
- Regra legal. Só números públicos e agregados; nenhum caso, nome ou processo concreto (LPCJP, artigos 88.º a 90.º; RGPTC, artigo 33.º, n.º 2).
Gaspar do Amaral · 2 de novembro de 2026 · A Família e os Tribunais, n.º 1 · publicado só neste site · Imagens © Aprecisa.com